Racha Bolsonaro: Michelle e Flávio em atrito por política cearense
Michelle Bolsonaro denuncia humilhação de Flávio por divergências sobre apoio político no Ceará. Entenda o racha Bolsonaro nas eleições de 2026.

O desentendimento que dividiu a família Bolsonaro
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro revelou um racha Bolsonaro ao publicar vídeos nas redes sociais em que relata ter sido humilhada pelo senador Flávio Bolsonaro. O racha Bolsonaro ocorreu após divergências sobre as estratégias políticas do Partido Liberal no Ceará, particularmente quanto ao apoio a candidatos estaduais para as eleições de 2026. Michelle acusa o irmão de Jair Bolsonaro de desrespeitá-la quando questionou decisões partidárias já tomadas.
O episódio que originou o racha Bolsonaro iniciou-se em um comício realizado em Fortaleza no final de 2025, onde Michelle participava de atividades políticas. Na ocasião, a ex-primeira-dama questionou publicamente a articulação do deputado federal André Fernandes para que o PL apoiasse a candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Estado.
Michelle, Ciro e o ponto de discórdia
Michelle argumentou que Ciro Gomes havia feito críticas severas contra Jair Bolsonaro e seus filhos durante a presidência anterior, tornando precipitado qualquer apoio do partido ao ex-ministro. Segundo her relato, ela sugeriu que uma eventual aliança do PL com Ciro apenas seria apropriada em um segundo turno eleitoral, não desde o início do processo.
A ex-primeira-dama manifestava preferência pelo senador Eduardo Girão, do partido Novo, como candidato ao governo estadual. Para Michelle, Girão representava melhor os valores defendidos pela família Bolsonaro. Durante seu discurso no comício, ela dirigiu críticas diretas a André Fernandes, presidente estadual do PL no Ceará.
"É sobre essa aliança que vocês se precipitaram a fazer. Eu tenho orgulho de vocês, mas fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, assim não dá", afirmou Michelle na ocasião.
A conversa telefônica que escalou o conflito
Conforme relatado pela ex-primeira-dama, Flávio Bolsonaro telefonou para ela logo após seu discurso no comício. Durante a conversa, os dois entraram em desentendimento acirrado. Flávio teria dito a Michelle que seria melhor ela se manter afastada das decisões do partido, argumentando que ela havia chegado recentemente e não possuía experiência suficiente em assuntos políticos.
Michelle descreveu o episódio como uma humilhação pública disfarçada. "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem", narrou a ex-primeira-dama. Ela interpretou as palavras de Flávio como uma rejeição ao seu apoio político, descrevendo-se como alguém cujo envolvimento era considerado insignificante pelas lideranças do partido.
Disputa pelo apoio senatorial no Ceará
Além da questão envolvendo Ciro Gomes, Michelle também apontou um segundo ponto de tensão no racha Bolsonaro: a disputa por uma vaga de senador no Ceará. Em junho de 2025, Michelle havia apoiado publicamente a pré-candidatura da deputada federal Priscila Costa ao Senado pelo PL.
No entanto, André Fernandes estava promovendo a candidatura de seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes, para a mesma vaga. Michelle afirmou que a candidatura de Priscila havia sido previamente acordada com Jair Bolsonaro, configurando uma ruptura do compromisso.
"Não honrar essa determinação do meu marido será um ato de traição contra Jair Messias Bolsonaro. Já que a aliança com Ciro é tão boa, por que o André não disponibiliza a vaga de seu próprio pai? Por que só a mulher tem que ceder?", questionou Michelle de forma crítica.
Os personagens envolvidos no racha Bolsonaro
André Fernandes atua como deputado federal e presidente estadual do PL no Ceará, sendo o principal articulador da aproximação com Ciro Gomes desde 2025. Ele defende uma união das forças de direita em torno de um candidato único para enfrentar o governador Elmano de Freitas, do PT, além de promover a candidatura de seu pai ao Senado.
Ciro Gomes, ex-ministro e ex-governador do Ceará, foi lançado como pré-candidato do PSDB ao governo estadual em maio de 2026, com ampla participação de lideranças do PL no evento de filiação.
Eduardo Girão, senador pelo Ceará e filiado ao partido Novo, é apoiado por Michelle como pré-candidato ao governo estadual. Seu nome representa a preferência da ex-primeira-dama por candidatos que mantêm alinhamento ideológico com Bolsonaro.
Alcides Fernandes, deputado estadual pelo PL e pai de André, foi lançado como candidato do partido para o Senado cearense, consolidando a estratégia familiar na política local.
Priscila Costa, vereadora de Fortaleza pelo PL, seria eleita deputada federal e foi indicada por Michelle como candidata senatorial, representando a posição da ex-primeira-dama nas negociações políticas estaduais.
Reações à crítica de Michelle
As declarações de Michelle geraram respostas imediatas de outros membros da família Bolsonaro. Flávio afirmou que a ex-primeira-dama havia "atropelado" as deliberações de Jair Bolsonaro ao questionar movimentos de articulação que teriam sido autorizados pelo ex-presidente. Carlos Bolsonaro e Jair Renan endossaram a crítica de Flávio contra Michelle.
No Ceará, lideranças do PL também se posicionaram em defesa de André Fernandes e das negociações com Ciro. Alcides Fernandes argumentou que Ciro era a melhor opção de oposição disponível no estado. A deputada estadual Dra. Silvana qualificou as palavras de Michelle como "um verdadeiro ataque" a André Fernandes, afirmando que Jair Bolsonaro havia conferido plena autoridade ao deputado federal para conduzir as tratativas políticas cearenses.
Posicionamento de Michelle após o racha Bolsonaro
Em resposta às críticas recebidas, Michelle publicou uma nota em que respeitava a opinião dos que defendiam a aliança com Ciro, mas mantinha sua discordância pessoal. "Aqueles que defendem essa aliança são livres para continuar com ela, mas não deveriam me criticar por não aceitá-la. Eu tenho o direito de não aceitar isso, ainda que essa fosse a vontade do Jair", afirmou a ex-primeira-dama.
Meses depois, em resposta à reação de Flávio e dos enteados, Michelle reiterar sua posição contrária à aliança, ainda que reconhecesse a liberdade política de seus críticos. Seu posicionamento refletia tanto uma questão de princípios políticos quanto um questionamento sobre sua influência nas decisões do partido.
Cronologia do apoio à Ciro Gomes
A aproximação entre André Fernandes e Ciro Gomes começou após as eleições municipais de 2024, quando André disputou a prefeitura de Fortaleza no segundo turno contra Evandro Leitão, perdendo por margem inferior a dez mil votos. Na época, recebeu apoio do ex-prefeito Roberto Cláudio, aliado tradicional de Ciro.
Ao longo de 2025, conversas entre Ciro e lideranças do PL intensificaram-se visando uma chapa conjunta para o governo estadual. Pesquisa Quaest de abril de 2025 indicava Ciro liderando as intenções de voto com 41%, seguido por Elmano de Freitas com 32%, enquanto Eduardo Girão registrava apenas 4%.
Em dezembro de 2025, o PL suspendeu temporariamente as negociações com o PSDB após as críticas de Michelle, embora o movimento tenha apenas adiado a aliança. Em maio de 2026, o PL Ceará finalmente oficializou seu apoio a Ciro Gomes, consolidando a estratégia política que havia gerado o racha Bolsonaro.
