Verificação de declarações de Romeu Zema
Checagem das principais afirmações do candidato Romeu Zema em entrevista ao g1 e GloboNews. Veja quais são fatos, fake news e meias verdades.

Verificação das principais declarações de Romeu Zema na entrevista ao g1 e GloboNews
O candidato à Presidência da República pelo partido Novo, Romeu Zema, participou de uma entrevista conduzida pelas jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery nos estúdios da GloboNews, no Rio de Janeiro, nesta quinta-feira. A entrevista faz parte de uma série de questionamentos com os presidenciáveis mais bem colocados na pesquisa Datafolha mais recente. A equipe de verificação de declarações do g1 analisou as principais afirmações do entrevistado, identificando informações verdadeiras, falsas e parcialmente precisas.
Análise das afirmações sobre governança e corrupção
Zema afirmou ter realizado um governo de sete anos e meio sem escândalos e corrupção. No entanto, essa afirmação foi classificada como falsa. A Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal em 2025, revelou um esquema bilionário de corrupção na mineração de Minas Gerais que afetou diretamente o alto escalão do governo estadual. Pelo menos quatro dirigentes de órgãos ambientais e de patrimônio foram exonerados ou afastados de seus cargos após serem citados nas investigações relacionadas ao esquema.
O inquérito demonstrou que um grupo criminoso formado por empresários, delegados e políticos oferecia subornos a servidores públicos para obter licenças ambientais que permitiam a exploração de minério de ferro em diferentes regiões do estado. Entre os alvos estavam funcionários da Fundação Estadual do Meio Ambiente e da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais.
Desempenho econômico e finanças do estado
Quanto à recuperação financeira de Minas Gerais, a verificação de declarações confirmou como verdadeira a afirmação de que o estado saiu de um déficit para um superávit. No Balanço Geral do Estado divulgado no final de 2018, o déficit orçamentário foi de aproximadamente R$ 11,4 bilhões. Em 2024, o resultado registrou um saldo positivo de R$ 5,1 bilhões, impulsionado por receitas extraordinárias obtidas com os acordos de Mariana e Brumadinho.
Contudo, é importante ressaltar que ao fim de 2025, a Secretaria de Estado da Fazenda apontou um superávit de R$ 1,1 bilhão, enquanto para o fim de 2026, projeta-se o retorno de um déficit de R$ 5 bilhões. Estes dados demonstram uma realidade mais complexa do que simplesmente a transformação de um déficit em superávit permanente.
Investigações sobre empresas privadas e o Banco Master
Zema declarou que apenas entes públicos estavam envolvidos no esquema do Banco Master, negando participação de bancos privados e fundos de pensão privados. A equipe de verificação de declarações classificou essa afirmação como não sendo completamente precisa. Embora as investigações não mencionem envolvimento de bancos privados tradicionais, empresas privadas como a Reag Investimentos aparecem nas apurações.
Segundo a Polícia Federal, fundos administrados pela gestora foram usados em operações para inflar o patrimônio do Banco Master e ocultar participação acionária. Além disso, a produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, também aparece no caso com suspeitas de recebimento de recursos provenientes do esquema.
Problemas herdados do governo anterior
A afirmação de que Zema assumiu um estado com 240 mil servidores públicos com nome sujo no SPC e Serasa foi confirmada como verdadeira. Em maio de 2020, a Polícia Civil de Minas Gerais indiciou o ex-governador Fernando Pimentel por crime de peculato em um suposto desvio de R$ 855 milhões de recursos de empréstimos consignados de servidores estaduais.
As investigações apontaram que o governo retinha o dinheiro devido a instituições financeiras privadas para pagamento de despesas do estado. Cerca de 260 mil servidores foram afetados, tendo seus nomes inscritos em cadastros de inadimplentes. O ex-secretário de estado da Fazenda também foi indiciado neste processo.
Investigações internas do partido Novo
A afirmação de que não tem nenhuma pessoa do seu partido sendo investigada foi classificada como falsa. Em 30 de abril, o deputado estadual Elizeu Nascimento, do Novo de Mato Grosso, foi alvo de busca e apreensão na Operação Emenda Oculta. A investigação apurou o direcionamento irregular e suposto desvio de recursos de emendas parlamentares para entidades privadas.
Além disso, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, também filiado ao Novo, responde no Supremo Tribunal Federal à Ação Penal originada de investigação da Polícia Federal sobre suposto esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais. O caso ainda aguarda julgamento.
Desempenho do mercado de trabalho estadual
A declaração sobre a criação de mais de um milhão de empregos foi verificada como verdadeira. Em 2018, a taxa de desemprego em Minas Gerais foi de 10,8%, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desocupação ficou em 5%, representando uma redução de 5,7 pontos percentuais.
Considerando que o Censo de 2022 apontou 16.627.121 pessoas com 15 anos ou mais no estado, uma redução de 5,7% neste montante representaria aproximadamente 947.745 pessoas deixando a situação de desemprego durante a gestão Zema.
Segurança de barragens após Brumadinho
Quanto às medidas de segurança de barragens, a verificação de declarações identificou imprecisões na narrativa apresentada. A barragem B-I da mina Córrego do Feijão rompeu em 25 de janeiro de 2019, durante o primeiro mês de gestão de Zema. Em 25 de fevereiro de 2019, Minas sancionou a Lei nº 23.291, conhecida como Mar de Lama Nunca Mais, que instituiu a Política Estadual de Segurança de Barragens.
A lei proibiu novas barragens construídas pelo método de alteamento a montante e determinou a descaracterização das estruturas existentes. No entanto, parte das normas de segurança já existia antes de Brumadinho. A Política Nacional de Segurança de Barragens foi criada em 2010, e Minas Gerais já realizava um programa estadual de gestão e fiscalização antes da lei de 2019. Além disso, o número de 18 barragens descomissionadas estava desatualizado, sendo que 23 estruturas já foram descaracterizadas e 30 seguem em processo de descaracterização conforme painel do Ministério Público de Minas Gerais atualizado em 23 de julho de 2026.
Processo judicial envolvendo ministro do Supremo Tribunal Federal
A afirmação sobre um processo respondido contra o ministro Gilmar Mendes foi confirmada como verdadeira. Zema é alvo de um processo classificado como crime de calúnia que tramita em segredo de justiça no Superior Tribunal de Justiça. O caso diz respeito a um vídeo postado por Zema no Instagram em 5 de março, no qual os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli foram retratados de forma irônica através de fantoches em conteúdo que tratava do Banco Master.
Em 20 de abril, Gilmar Mendes pediu que Zema fosse incluído no inquérito das Fake News, mas em 15 de maio, o procurador-geral da República repassou o caso ao STJ, afirmando ser o foro adequado já que o suposto crime teria sido cometido no exercício do mandato de governador.
Criminalidade organizada e presença territorial de facções
A afirmação sobre 60 milhões de brasileiros morando em áreas controladas por facções criminosas foi verificada como verdadeira, embora com ressalvas sobre interpretação. Pesquisa contratada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública junto ao Datafolha publicada em maio deste ano estima que 68 milhões de brasileiros percebem a presença de grupos criminosos envolvidos com tráfico de drogas ou milícias em seus bairros de moradia, equivalente a 41% da população.
Estudo posterior de 2025 indicou que ao menos 28,5 milhões de pessoas convivem com crime organizado em seus bairros. Já pesquisa realizada pela universidade britânica Cambridge e publicada em agosto, apontou que entre 50,6 milhões e 61,6 milhões de pessoas vivem em locais com regras impostas por facções criminosas. Números que sustentam a afirmação original feita durante a entrevista.
Ocupação de cargos por mulheres nas instituições de segurança pública
A afirmação sobre mulheres ocupando cargos de comando no Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil de Minas Gerais foi confirmada como verdadeira. Os cargos são ocupados respectivamente pela coronel Jordana de Oliveira Filgueiras Daldegan, coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues e delegada-geral Letícia Baptista Gamboge Reis.
A equipe de verificação de declarações consultou os comandos de cada uma delas nos 26 estados e no Distrito Federal e confirmou que nenhum outro ente federativo tem mulheres ocupando simultaneamente esses três cargos de comando nas mesmas instituições.
Multas ambientais em casos de rompimento de barragens
Quanto às multas ambientais aplicadas, a verificação de declarações identificou imprecisões na narrativa. Zema afirmou que aplicou a maior multa ambiental da história em Brumadinho. A Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais aplicou à Samarco em 18 de novembro de 2015 uma multa de R$ 112 milhões pela poluição ambiental em Mariana.
Posteriormente, foram lavrados 31 autos de infração contra a Samarco. Após recursos da empresa, cinco foram anulados. Entre os autos válidos, havia multas de R$ 127,6 milhões e R$ 180 milhões relacionada à mortandade de peixes. A multa inicial de Brumadinho não superou a primeira multa estadual de Mariana, como alegado. A Semad aplicou inicialmente uma multa de aproximadamente R$ 99 milhões à Vale em Brumadinho.
Em entrevista à rádio em maio deste ano, Zema citou R$ 37 bilhões como a maior multa ambiental da história. Contudo, esse montante refere-se ao valor global do Acordo Judicial de Reparação de Brumadinho, assinado em 4 de fevereiro de 2021 pela Vale com múltiplas instituições, não se tratando de uma multa aplicada exclusivamente pelo governo de Minas Gerais. O acordo de Brumadinho de fato serviu de parâmetro para a repactuação de Mariana assinada em 2024 por R$ 170 bilhões, embora trate de reparação e compensação, não de aumento retroativo de multa ambiental.
Conclusão da análise de declarações
A verificação de declarações realizada pela equipe do g1 e GloboNews demonstra que das principais afirmações feitas por Romeu Zema durante a entrevista, algumas foram confirmadas como verdadeiras, enquanto outras apresentaram imprecisões significativas ou foram completamente desmentidas. Os dados e fatos aqui apresentados refletem a complexidade das questões políticas e administrativas envolvidas na gestão do estado de Minas Gerais durante o período mencionado.
