Poder de compra de fertilizantes do cafeicultor recua em setembro
Cafeicultor precisava de 19,4% mais café para comprar adubo em setembro. Entenda impacto do clima atípico na safra 2027/28.

Retração no poder de compra de fertilizantes atinge cafeicultores brasileiros
O poder de compra de fertilizantes enfrentou queda significativa em setembro nas principais regiões produtoras de café do Brasil, impactando diretamente o planejamento da abudação da safra 2027/2028. Conforme análise divulgada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), de Piracicaba (SP), o cenário se mostrou desafiador para os produtores no período de organização das adubações iniciais.
A situação do poder de compra de fertilizantes revelou-se particularmente crítica quando comparada ao mês anterior. De acordo com o boletim publicado pela instituição de pesquisa, o cafeicultor necessitava de aproximadamente 19,4% a mais de café em setembro para adquirir a mesma quantidade de adubo disponível em agosto, quando os produtores já iniciavam o planejamento da primeira adubação.
Análise dos preços no mercado de café e insumos
O Indicador Cepea/Esalq do café arábica em setembro de 2024 operou com cotações significativamente inferiores às máximas históricas registradas no período anterior. Enquanto em 2023 o arábica atingiu patamares de até R$ 2.700 a saca, os valores em 2024 ficaram posicionados na casa de R$ 1.600 a saca de 60 quilogramas. O café robusta, por sua vez, foi negociado a aproximadamente R$ 990 a saca.
Esta desvalorização do café, combinada com a manutenção ou elevação dos custos de insumos agrícolas no estado de São Paulo, resultou na redução substancial do poder de compra de fertilizantes entre produtores. O cálculo realizado pelo centro de estudos considerou os indicadores de preço do café arábica e os valores médios dos fertilizantes praticados no mercado paulista.
Perspectivas para a aplicação de adubos na safra 2027/28
Embora boa parte dos adubos já tenha sido aplicada nos cafezais até setembro, agentes do setor consultados pelo Cepea indicam que uma segunda remessa de insumos deverá ser realizada até o encerramento de 2024 e início de 2025. Este calendário de aplicações múltiplas torna relevante o planejamento antecipado das compras de fertilizantes pelos produtores.
O poder de compra de fertilizantes deverá influenciar as decisões de investimento em adubação para o próximo ciclo produtivo. Muitos cafeicultores precisarão reorganizar suas estratégias de compra e timing de aquisição de insumos para otimizar recursos financeiros limitados.
Influência climática e perspectivas de produção
O inverno atipicamente chuvoso registrado nas principais regiões produtoras, incluindo o interior paulista e o Sul de Minas Gerais, trouxe consequências significativas para o desenvolvimento das lavouras. As chuvas excessivas, particularmente em julho, afetaram aproximadamente 30% da safra brasileira 2026/2027 que ainda não havia sido colhida na ocasião.
As condições climáticas inadequadas prejudicaram não apenas o volume, mas também a qualidade dos grãos. O excesso de umidade durante a secagem contribuiu para fermentação indesejada e comprometimento das características sensoriais do café, fatores determinantes para a classificação e cotação no mercado internacional.
El Niño e perspectivas para os preços futuros
Os próximos meses deverão ser marcados por forte influência das condições climáticas, especialmente a presença ou ausência do fenômeno El Niño. As oscilações climáticas têm potencial para impactar a florada e a formação dos frutos, elementos cruciais para a produção da safra subsequente e, consequentemente, para o comportamento dos preços.
A expectativa de bienalidade baixa na safra 2027/2028, combinada com a parcela expressiva de lavouras que apresentarão fadiga produtiva após o volume elevado colhido na safra 2026/2027, pode manter a oferta de café mais restrita. Este cenário limita pressões significativas de queda nos preços e mantém certa sustentação nos patamares de cotação.
Impacto na qualidade da bebida e exportações
As chuvas atípicas registradas durante o período crítico de colheita representam preocupação central para a qualidade do café brasileiro, principal produto de exportação do setor. A avaliação sensorial da bebida constitui um dos critérios mais rigorosos para classificação e determinação do valor no mercado estrangeiro.
Especialistas indicam que grãos submetidos a condições de umidade excessiva durante secagem podem apresentar características sensoriais indesejadas, incluindo sabores acético-medicamentosos e adstringências que prejudicam a aceitação no mercado premium. A densidade e tamanho dos grãos também sofrem alterações, exigindo ajustes nas receitas de processamento em torrefações e cafeterias.
Dependência do mercado global na produção brasileira
O mercado global de café permanece significativamente dependente da produção brasileira, tornando os cenários climáticos e econômicos domésticos fatores determinantes para a dinâmica internacional de preços e disponibilidade. A conjugação de menor poder de compra de fertilizantes, qualidade comprometida pela umidade excessiva e perspectivas de redução produtiva na próxima safra cria ambiente complexo para cafeicultores brasileiros.
O poder de compra de fertilizantes, indicador sensível às variações de preço do café, funcionará como termômetro importante para acompanhar a recuperação do setor nos meses subsequentes. Produtores deverão monitorar atentamente as cotações e oportunidades de compra de insumos para otimizar investimentos na manutenção e renovação de seus cafezais.
