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Laura Carvalho explica insatisfação econômica

Economista da USP analisa paradoxo entre crescimento econômico e insatisfação dos brasileiros. Redes sociais ampliam desejos de consumo além da renda disponível.

Laura Carvalho explica insatisfação econômica
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/07/11/a-economista-que-tenta-entender-a-insatisfacao-dos-brasileiros-sob-lula-redes-sociais-criam-desejos-de-consumo-para-alem-do-crescimento-da-renda.ghtml

O paradoxo econômico brasileiro sob Lula

A insatisfação econômica brasileira representa um dos maiores enigmas do terceiro mandato presidencial. Apesar de indicadores macroeconômicos robustos — desemprego em mínimas históricas de 5,6%, crescimento do PIB acima das expectativas e 17,5 milhões de pessoas saídas da pobreza entre 2022 e 2024 — a população brasileira mantém visão pessimista sobre a economia. Pesquisa Genial/Quaest de junho mostrou que 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% declaram melhoria.

Esse desconexo entre resultados econômicos positivos e percepção negativa intriga economistas e gestores de políticas públicas. A insatisfação econômica não emerge apenas de fatores tradicionais, mas de transformações profundas nas expectativas sociais e comportamentos de consumo.

Análise da economista Laura Carvalho sobre o fenômeno

Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, dedicou-se a compreender esse descolamento. Junto com seu colega Guilherme Klein Martins, elaborou artigo intitulado «Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia».

Segundo a análise da economista, quatro fatores principais explicam a insatisfação econômica: efeitos persistentes da inflação sobre o bem-estar das famílias; comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, período mais próspero dos primeiros governos Lula; mudança nos desejos de consumo amplificada pelas redes sociais; e frustração de população escolarizada que não encontra postos de trabalho compatíveis com sua formação profissional.

Redes sociais e a transformação do consumo aspiracional

Entre os fatores explicativos da insatisfação econômica, as redes sociais ocupam lugar central na análise de Carvalho. A plataforma de disseminação de padrões de consumo alterou radicalmente como as pessoas formam suas aspirações materiais. «Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil», afirma a economista.

Historicamente, o economista James Duesenberry já observava que consumo aspiracional sempre existiu na teoria econômica. Pessoas naturalmente buscam emular padrões de consumo de grupos sociais que desejam integrar. Porém, as redes sociais transformaram essa dinâmica antiga em fenômeno de escala global sem precedentes. «Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país», explica Carvalho.

Essa homogeneização global de desejos e aspirações, acontecendo em velocidade inédita na história, gera sensação de insatisfação económica mesmo quando houve melhorias reais na renda. As pessoas observam estilos de vida distantes e inalcançáveis, não apenas bens materiais, mas padrões completos de existência que incluem viagens, lazer e formas de gastar tempo livre.

Diferenças entre a prosperidade dos anos 2000 e o atual momento

Carvalho identifica contraste importante entre sentimentos durante os primeiros governos Lula e o período atual. Nos anos 2000, distribuição de renda na base da pirâmide associada ao crescimento econômico expressivo incluiu população previamente excluída do mercado consumidor. Pessoas tiveram acesso a geladeiras, viagens de avião e bens que antes eram privilégio de poucos. Emergiu nova classe média satisfeita com esse padrão de consumo recém-adquirido.

Diferentemente, a geração atual que se beneficia do crescimento já não se contenta com bens básicos. Educação mais ampla, acesso a informações globais e influência das redes sociais criaram expectativas muito superiores. O crescimento econômico atual, embora real, ocorre sobre níveis de renda historicamente deprimidos, pois o país viveu década de crescimento mínimo de renda per capita. Apenas em 2024 as pessoas recuperaram o nível de renda que possuíam em 2014.

A questão da desigualdade persistente no Brasil

A professora da USP aponta que desigualdade brasileira caracteriza-se por concentração extremamente elevada de renda e patrimônio no topo da pirâmide. Políticas sociais e valorização do salário mínimo conseguiram reduzir desigualdade entre classe média e base social. Todavia, hiato entre topo e meio da pirâmide permaneceu praticamente inalterado ao longo das décadas.

O terceiro mandato de Lula marca primeira tentativa sistemática de atacar essa característica estrutural. A reforma do Imposto de Renda estabeleceu alíquota mínima de 10% para rendas elevadas e isenção progressiva para quem ganha até R$ 7,5 mil. Contudo, Carvalho ressalta que essas medidas, embora importantes, constituem apenas passo inicial.

«O debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza», defende a economista. Tributação de renda pode frear concentração futura, mas não corrige acumulação histórica de patrimônio. Concentração de riqueza é mais elevada que concentração de renda, perpetuando desigualdade também no sistema político, pois influência de detentores de patrimônio elevado permanece desproporcional.

A dívida pública como mecanismo de transferência de renda

Análise de Carvalho destaca papel crucial da dívida pública na perpetuação de desigualdade. Estado brasileiro, por meio de dívida pública elevada que remunera credores com juros muito altos, acaba transferindo renda para os mais ricos. Muitos detentores de dívida pública são pessoas de alto patrimônio que, sem risco significativo, obtêm rendimentos elevados através dessa transferência estatal.

«Isso significa, sim, que o governo transfere renda para os mais ricos. Inclusive, me parece que o custo distributivo da dívida é algo que a gente não fala muito», problematiza a professora. Esse mecanismo invisível de transferência regressiva de renda frequentemente passa despercebido em debates públicos, mantendo estrutura de desigualdade.

Agenda para novo ciclo de prosperidade econômica

Para retomar ciclo de prosperidade que reverta insatisfação económica, Carvalho propõe agenda de três frentes complementares. Primeiro, economia deve crescer substancialmente e renda deve se redistribuir, pois quanto maior a desigualdade, mais difícil para maioria da sociedade se beneficiar do crescimento.

Segundo, expansão de serviços públicos de qualidade permite que populações gastem menos com serviços privados. Acesso a Sistema Único de Saúde (SUS) robusto dispensa planos de saúde. Educação pública eficiente reduz pressão por educação privada. Transporte público de qualidade melhora qualidade de vida e libera renda para outras aspirações.

Terceiro, agenda de tributação deve avançar além do Imposto de Renda. Subsídios e gastos tributários, representando 6% do PIB, frequentemente beneficiam setores influentes sem perseguir objetivos claros. Melhorar eficiência do gasto público, através de digitalização de serviços, permite que mesmos investimentos alcancem qualidade superior e população maior.

Desafios do emprego qualificado para população escolarizada

Governo Lula expandiu significativamente acesso ao ensino superior através de Fies, Prouni e expansão de universidades federais. Geração inteira de pessoas de famílias sem tradição universitária obteve diplomas de nível superior. Essas pessoas buscam postos de trabalho compatíveis com qualificação, porém economia gera predominantemente empregos em serviços de baixa qualificação, com remuneração em torno do salário mínimo.

Percentual de pessoas em empregos que requerem educação menor que a que possuem aumentou substancialmente na última década. Solução demanda política que analise estrutura produtiva, identifique setores com competitividade internacional e crie empregos qualificados. Integração entre Sistema S, universidades e institutos federais com estratégia de desenvolvimento industrial torna-se essencial para alinhar formação profissional com oportunidades reais de mercado.

Perspectivas futuras e novo livro em preparação

Laura Carvalho mantém posição como analista independente de política econômica brasileira, preferindo não assumir cargos no Executivo. Sua contribuição maior reside em análise e diálogo permanente com formuladores de políticas. Atualmente, dedica-se a escrever novo livro que analise o ciclo necessário de prosperidade econômica, similar ao seu anterior «Valsa Brasileira».

O novo trabalho buscará identificar agenda de prosperidade econômica capaz de superar desafios contemporâneos, considerando limites estruturais do país. Objetivo é abrir «frestas necessárias» para implementação de agendas transformadoras que devolvam aos brasileiros confiança na economia e perspectiva de futuro mais próspero e equânime.

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